Clave d’Alma: Casos Clínicos

Manuela

No início do Outono de 2013, Manuela, de 22 anos, estudante universitária, apareceu no consultório com olhar triste e vestida de escuro. O tom da sua voz era, quase, inaudível: “A minha mãe morreu há cinco anos. Sofria de um cancro nos ovários e permaneceu todo aquele tempo em constante luta pela vida. No primeiro ano da doença foi operada, fez quimioterapia e parecia que tinha corrido tudo bem. Uns anos mais tarde, a doença voltou a aparecer e foram iniciadas novas sessões de quimioterapiaIsso deixou-a muito em baixo, e os tratamentos não estavam a fazer efeito”.

Nunca foi dito a Manuela a gravidade da situação, por isso manteve sempre a esperança que tudo voltaria ao normal e que a mãe regressaria a casa. “Quando a minha mãe se encontrava internada no hospital nunca pensei que fosse a última vez que a iria ver. Despedi-me dela com um abraço e ela disse-me ao ouvido: Vai correr tudo bem, filha!  Era uma mulher com muita força! Adorada por muitas pessoas por ter um bom coração e estar sempre disposta a ajudar”.

As primeiras sessões de Manuela eram pautadas por silêncios, prolongados silêncios! Os olhos, postos entre mim e o chão, enchiam-se de lágrimas que não caíam por falta de autorização. Natural, a dor há anos guardada, estava habituada a ser suprimida. Objectivos de vida não existiam! Sentia-se defraudada por lhe ter sido roubado o melhor da vida, a sua mãe.

Já passaram alguns anos mas a dor e a saudade estão sempre presentes na minha alma. Por que me aconteceu isto a mim?” foi uma pergunta que Manuela fez infinitas vezes a si própria, mas que nunca obteve uma resposta que a satisfizesse.“A vida mostra-nos coisas que acontecem de um momento para o outro e sem percebermos bem a razão, pois estamos a agir da forma mais correcta e levamos uma vida saudável. Eu nunca soube lidar bem com a morte da minha mãe. Era o meu apoio e a ela contava tudo o que se passava na minha vida. Sentia-me perdida e infeliz”.

Ao longo do tempo, Manuela começou a permitir-se sentir. Continuava perdida, mas menos. Como a relação com os colegas da faculdade era, praticamente, inexistente, devido ao seu constante isolamento, os trabalhos de grupo transformavam-se num sofrimento intenso. O rapaz com quem namorava, chegou mesmo a terminar a relação por não a sentir. Em consulta, Manuela indignava-se com isso: “Mas eu amo-o, como é que ele não sente?!”

“Soube do consultório da Dra. Carla e decidi encontrar-me com ela. Expliquei-lhe a minha situação e por aquilo que estava a passar. Achava que tudo era negativo e não entendia, nem aceitava, aquilo que tinha acontecido. “Via a Minha Alma Cinzenta”.  Com a morte da minha mãe, houve uma grande mudança nas nossas vidas. A família ficou sem um membro, que era o elo de ligação entre mim, a minha irmã, e o meu pai. Foi preciso haver uma adaptação a uma nova vida, uma organização das nossas vidas pessoais e aprender a viver sem ela. A relação com o meu pai sempre foi um pouco distante, porque ambos somos pessoas fechadas. Eu desejava que isso tivesse mudado quando a minha mãe morreu, mas não aconteceu. Não posso querer algo de uma pessoa, se essa pessoa não quer ser modificada”. Trabalhámos a aceitação. Era o pai que Manuela tinha e sempre tinha tido. Também ele estava a fazer o seu processo de luto. Investimos, ao longo da terapia, na sua maneira de ver a vida e a dos outros.

Então, decidi que tinha de ser eu a mudar! Criar uma lista de objectivos para a minha mudança, ajudou-me a entender o que tinha de fazer e que caminho seguir. Mudar a minha maneira de pensar, agir, falar e lidar com as situaçõesEntender que em certas situações devia agir de maneira diferente: pensar primeiro e agir depois”. Como Manuela estava zangada e revoltada por se ter sentido, precocemente, privada do seu grande amor, fechou-se. Quando decidia expressar a sua opinião, fazia-o de forma acutilante. “Não ser tão compulsiva e bruta nas palavras que digo, ser directa mas de maneira gentil, foi uma coisa que aprendi”.

Num processo de luto mais do que dizer faz sentido ouvir. Por isso, foram sempre respeitados os seus tempos. “Durante as sessões, eu e a minha terapeuta, conversámos apenas daquilo que eu achava que era importante falar. Cheguei a várias conclusões que me ajudaram a sentir melhor com a vida e com a pessoa que sou. Para me sentir mais próxima da minha mãe, vestia as roupas dela. Mas ao mesmo tempo não me identificava, nem me sentia bem com o que tinha vestido por não ter sido eu a escolher as roupas.Sentia que a minha personalidade estava escondida, como se fosse uma capa colocada por cima da pele que não deixava mostrar a pessoa que eu era”. Usar a roupa da mãe não a devolveria ao mundo. Manuela tinha de ser ela, e não uma colagem da mãe!

Ao longo do tempo, fui deixando de usar a roupa da minha mãe e decidi guardá-la em caixas num armário. Primeiro no meu quarto e depois no quarto do meu pai. Sei onde estão mas já não sinto a necessidade de as usar. Precisava de encontrar o verdadeiro “Eu”. Continua a ser um processo, encontrar quem sou e do que realmente gosto. O cheiro, o tacto, a voz e a imagem da minha mãe, são características que estão, e estarão, para sempre presentes na minha memória. O que eu não dava para estar só um momento com ela e dizer-lhe o quanto significa para mim. Ela tornou-se no meu anjo da guarda que me protege e dá força para viver.

Ao fim de um ano de consultas, com periodicidade mensal (com várias interrupções pelo meio, por vontade da paciente), sinto-a mais segura e confiante. Terminou o mestrado e está a iniciar-se no mercado de trabalho. A sua relação amorosa, como todas as outras, tem altos e baixos mas começa a respirar. Ajudou muito o facto de se questionar. Hoje, Manuela veste-se com cores mais claras. Não, necessariamente, alegres, mas menos fúnebres. Sorri. Sai à noite. Começou a entregar-se sem medo! "Hoje já aceito a perda da minha mãe. Não é fácil viver assim, mas se continuamos vivos é para olharmos para o futuro e aproveitarmos a vida”! Agora, Vejo a Minha Alma Cor-de-Laranja”! Decorrido este processo terapêutico, o luto está concluído! A vida continua e a da Manuela também.

Leonardo

Foi a mãe que marcou a consulta. Quando a campainha tocou e fui à porta, um rapaz de calções, ténis, t-shirt e boné para trás, escondia-se. Não consegui precisar-lhe a idade mas aparentava ter 15, 16 anos. Perguntei quem ia entrar. A mãe resumiu, apressadamente: “É assim, a consulta é para o meu filho, mas como ele não vai saber explicar bem o que se passa, acho que é melhor eu entrar”! Olhei para ela e para ele. Assim que soube a sua idade decidi que entraria sozinho.

”Bem, ainda me lembro, como se fosse hoje, o dia em que fui pela primeira vez às consultas da Dra. Carla, acompanhado pela minha mãe, porque eu próprio não conseguia exprimir, realmente, como me sentia. Era uma pessoa com bastantes complexos comigo e com o meu corpo, principalmente com a acne, que achava que era a culpada de tudo. Mas, também com a minha falta de confiança na maior parte das coisas que fazia. E pouco acreditava que iam melhorar. Eu próprio sei que, apesar dos meus 27 anos, demonstrava pouca maturidade, era muito ansioso, nervoso e irrequieto”.

           Leonardo entrou e sentou-se. De olhos postos no chão. E assim se manteve durante alguns minutos. Tremia. Tinha um tique (agarrar na breguilha das calças e puxá-la para baixo, como se sentisse desconforto). Depois, timidamente, começou a falar da sua insegurança, da acne, e da dificuldade em dizer “não” aos amigos. Trabalhava numa fábrica, era poupado, tinha objectivos de vida, mas achava-se incapaz de realizá-los. As relações amorosas tinham sido complicadas e de curta duração. Mal se percebia o que dizia. Falava baixo e gaguejava ligeiramente. O aparelho nos dentes, também, não ajudava à dicção. A relação com o pai era saudável, mas com a mãe era de uma dependência emocional extrema.

Ao longo das sessões, pude constatar a sua baixa auto-estima, imaturidade emocional e ansiedade generalizada. Investimos na autonomia, na independência, na auto-estima e na auto-confiança. Foram trabalhadas novas e mais adaptativas estratégias de resolução de problemas, para utilizar em situações sentidas como ansiógenas. Conseguiu focar-se nos seus objectivos (já existentes) e passar à acção. A nível emocional, passou a recorrer mais à expressão do que à supressão emocional, procurando outras formas de lidar com as suas emoções e pensamentos, o que possibilitou a alteração dos comportamentos.

“E a verdade é que a partir daí as coisas deram um “Boom” enorme. Com mais confiança em mim, procurei a sorte, mais pessoas começaram a aproximar-se, a reparar que eu estava diferente, mais “solto”. Mas, isso nem sempre é bom, porque há boas e más pessoas, mas esse também foi uns dos pontos nos quais as consultas me ajudaram. Tornei-me uma pessoa ambiciosa na vida e lutadora, para poder realizar todos os meus projectos e sonhos. Hoje consigo controlar melhor os meus sentimentos, saber dizer “não” directamente a certas coisas, que antigamente tinha que inventar uma desculpa ou um motivo”.

No emprego, devido à sua nova atitude, surgiram convites para Leonardo trabalhar em filiais no estrangeiro, experiências que o ajudaram a crescer. “Nem tudo foi bom nessas viagens mas quando surgiram problemas soube sempre resolvê-los com a calma que não teria noutras alturas. Até no meu sentido de humor notei grandes diferenças, e as pessoas que me rodeiam também mo dizem. Descobri um dom que tinha e não sabia: o de pôr um sorriso na cara das pessoas. Aprendi a gostar mais de mim, porque só assim consigo que as pessoas também gostem. Haverá certamente muitas coisas mais nas quais eu mudei, mas talvez só as pessoas que estão à minha volta o possam dizer.

O facto de Leonardo ter tomado consciência que a maioria dos ganhos terapêuticos aconteceu desde que interiorizou e começou a aplicar as estratégias sugeridas em sessão, por si só, fez desenvolver a sua auto-estima e a sua auto-confiança.

Hoje, o seu vestuário é cuidado, como sempre tinha sido, mas condizente com a idade cronológica. Juntou dinheiro. Procura casa para ir viver sozinho. Gostava de constituir família. Do “rapazola” que entrou no consultório ficaram, apenas, ligeiras marcas da acne, a que deixou de atribuir a causalidade dos sucessos ou insucessos que vai obtendo na vida. Venceu a gaguez que era, essencialmente, decorrente dos sintomas psicológicos que apresentava, e tirou o aparelho dos dentes, o que possibilitou melhorias na dicção e na imagem que tem de si próprio. Em 14 sessões (ao longo de 1 ano), Leonardo cresceu, emocionalmente, 12 anos (dos 16 aos 28). “Tenho que agradecer às Dras.[1], mas muito a mim que tive a coragem de entrar no consultório, ouvir atentamente tudo aquilo que me diziam e dar um novo rumo à minha vida, um novo “eu” à minha vida”.

 

[1] Quando Leonardo diz "Dras" refere-se à Dr.ª Carla Andrino, psicóloga responsável pelo processo e à Dr.ª Patrícia Januário que foi co-terapeuta, no âmbito do Estágio Profissional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.